Desemprego e retração do mercado levam jovens aos concursos

Há cinco anos, Karina Alonso ingressou na faculdade de Jornalismo. Na época, sonhava com um futuro promissor e uma carreira sólida, afinal, estava cursando o ensino superior, em um país no qual apenas 16% da população concluem tal escolaridade. Durante o curso, Karina não teve dificuldades para conseguir um estágio: “Foi muito fácil, comecei a trabalhar já no terceiro período, quando o comum é começar no quinto”. O problema apareceu após a formatura, este ano. “Para ser mais exata, passei a sentir na pele a crise a partir de abril, quando acabou o contrato do meu segundo estágio, na época, nem liguei tanto, já que estava envolvida com o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Em junho, porém, me formei e, desde então, mando currículos todos os dias, mas raramente as empresas dão um retorno”.

Karina não está sozinha. Hoje, no Brasil, há cerca de 11 milhões e meio de desempregados, que representam 11,3% de toda a população, o que deixa o país em sétimo lugar no ranking mundial de desemprego, perdendo apenas para África do Sul, Espanha, Montenegro, Jordânia, Croácia e Chipre. Mas talvez nessas nações não haja um ingrediente que há aqui. Afinal, de acordo com o conhecimento popular, brasileiro nunca desiste. Fazendo jus ao ditado, muitos desses 11 milhões e meio de desocupados despertaram para um sonho comum que, certamente, ficou mais interessante em tempos de crise: a carreira pública. A estabilidade financeira, clichê na fala dos concurseiros, hoje tem um significado mais sólido: a certeza de que, no próximo mês, as contas serão pagas – o que pode ser considerado um privilégio em tempos de crise.

É na busca desse significado que Karina, mesmo ainda jovem – 22 anos – vive hoje. “Comecei a estudar para concursos quando percebi que, na iniciativa privada, como recém-formada, não teria retorno tão cedo. A aprovação representaria estabilidade financeira e a possibilidade de trabalhar na minha área. Por enquanto, não tenho um sonho a realizar, me contento em simplesmente arrumar um emprego mesmo”.

Mas Amanda Nascimento, de 23 anos, tem. Recém-formada pela Universidade Federal do Piauí, ela quer uma vaga pública para que possa juntar dinheiro e abrir sua própria confeitaria. Assim como Karina, a futura servidora e empresária nunca imaginou que, mesmo após formada, viveria o drama do desemprego: “Não acreditei que a crise, pela qual o país passa hoje, me afetaria tanto”.

Mas afetou. O choque de realidade veio quando a jovem voltou da Europa, onde foi cursar mestrado, em uma universidade na Espanha. “Foi uma experiência incrível, mas ficou muito cara. Então, tive que voltar. Quando cheguei, comecei a procurar emprego. Como não obtive sucesso, logo percebi que o melhor seria parar tudo e estudar para concurso. Honestamente, hoje tenho poucas esperanças na iniciativa privada, estou focada mesmo no setor público”. A desilusão com o setor privado é compensada com o romantismo da carreira pública: “Tenho que admitir que em um cenário econômico quase caótico, a possibilidade de um emprego estável, com horas bem contadas, férias programadas e alguns auxílios, é a tradução do que eu sonhei para minha vida”.

Ela compartilha desse sonho com João Rodrigues, que hoje, com 32 anos, quase não somou experiência profissinal. Ele concluiu a faculdade em 2013 e, em abril do ano seguinte, conseguiu um serviço como freelancer em uma empresa na qual havia estagiado. Mas o trampo só durou um mês. “Desde então, não trabalho”. João entende que toda profissão tem suas fases difíceis, mas cansou de esperar. Em julho deste ano começou a estudar para ingressar na carreira pública. “Percebi que não adiantava ficar esperando e que não podia ficar parado. Preciso poder me manter sozinho”. Ele conta que, sem experiência, é complicado conseguir uma vaga na iniciativa privada. E uma seleção pública, além de quase nunca exigir o requisito experiência, ainda o proporcionaria uma significativa bagagem profissional.

Se está difícil para João que não tem um vasto currículo, para Renata Bittes a situação não está melhor. E olha que ela possui o perfil dos sonhos de qualquer recrutador: é formada em Comunicação Social, pós-graduada em Gestão da Comunicação Organizacional, dona de um Inglês fluente, com experiência de intercâmbio, trabalho voluntário e um espanhol razoável. “Mesmo assim, após as entrevista para as quais era convidada, só ouvia o silêncio das empresas, que nem mesmo se davam o trabalho de me dar algum feedback. Chegou uma hora em que meu emocional esgotou, não aguentava mais tanta expectativa frustrada”. Contando sua agonia para uma amiga na academia, veio uma sugestão: “Ela me perguntou por que eu não seguia o exemplo do meu pai e irmão, e não prestava concursos públicos”.

Foi o que ela fez. “Tinha mais uma entrevista marcada e esperei uma semana para a resposta. Como ela nunca chegou, me matriculei em um cursinho preparatório”. E aí tudo começou a fluir. No início do ano, foi aprovada no concurso da Defensoria Pública da União (DPU) em primeiro lugar no cargo de jornalista, mas como só havia cadastro de reserva, ainda não foi contratada. Enquanto o grande dia não chega, ela continua na luta por uma vaga pública que, para ela, representaria, além de tranquilidade financeira, a oportunidade de trabalho para a vida inteira, sem mais ter medo de alguma crise ser motivo para dispensa. “Quero viajar, planejar filhos e juntar dinheiro para comprar uma casa no futuro”.

Esse desencantamento com o setor privado e a busca incessante por uma vaga pública, para a coach em concursos Lizia Medina, tem explicação. Ela esclarece que, apesar das dificuldades econômicas que o país enfrenta, grande parte das carreiras públicas continua apresentando inúmeros atrativos como, por exemplo, a estabilidade e as remunerações elevadas – se comparadas à iniciativa privada. E aconselha: “Esses jovens que não conseguiram uma colocação no mercado de trabalho e têm interesse em algum cargo público devem aproveitar esse período de crise econômica para a preparação”. A situação é preocupante, mas ela alerta: a falta de sorte de chegar ao mercado justamente num momento de retração econômica, não pode justificar a paralisia do recém-formado. Pelo contrário, o momento é propício para aprofundar os estudos.

Mas para quem quer sair na frente, é preciso mais do que dedicação: tem que ter agilidade. Observando esse êxodo da iniciativa privada, Lizia conclui que, consequentemente, pode haver um aumento nas inscrições para concursos. Assim, ela aconselha que os interessados partam logo atrás da sua vaga, antes que a maioria das pessoas enxergue nas seleções públicas a solução financeira diante da crise. Agora é a hora. Apesar de reconhecer que a relação candidato/vaga poderá sofrer um impacto, ela está otimista sobre a situação econômica nos próximos meses: “Tenho acompanhado os pequenos sinais de recuperação do país neste último trimestre do ano. Percebo que será um processo lento de melhora na qualidade de vida, mas espero que seja contínuo. Precisamos estar preparados para as oportunidades e para os concursos públicos que irão surgir com a recuperação da economia”.

Enquanto essa melhora não chega, é preciso ser ágil, mas também, manter a calma – principalmente na hora da escolha do concurso. Muitos candidatos se desesperam e passam a tentar qualquer seleção que é aberta. “Estão errados. Escolher uma carreira significa abrir mão de outras, mas isso gera foco que, por sua vez, gera resultados”. A carreira pública ideal deve se alinhar àquilo que é importante para o candidato. Deve-se fazer um exercício de autoconhecimento e entender quais são suas habilidades, competências e até mesmo se tem afinidade com a função que será desempenhada. “Desta forma, o candidato terá mais entusiasmo para se dedicar durante toda a sua jornada de estudos, já que estará se preparando para uma carreira que não apenas o salvará do desemprego e o garantirá estabilidade financeira, mas que fará sentido para a sua vida”.
Fonte:Folha Dirigida

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